Meu corpo dói demais. Minha cabeça não para. Sempre lista de tudo, para eu poder saber, nos mínimos detalhes, todas as coisas chatas que não vou fazer. Junto tudo, boto números, pra saber do que abro mão e chuto longe e deixo voar. As coisas mas eu fico. E daí já estou presa a outras coisas todas que preciso organizar pra não fazer. Eu organizo minha impossibilidade o tempo todo. Pra saber que deixei de e não fui deixada de. De de quê? Pra ter controle do que não consigo. Eu listo minha preguiça. Eu sei de cor a chatice de tudo que tô desdenhando. E sofro porque sou a certinha da anarquia. Sempre com o cansaço de defender o lugar do meio, com tanta porrada vindo dos dois lados. O morno de ser. O quase de tentar. A corda bamba de se manter. Nem lá nem lá. Cá mesmo. Meu dente aperta demais os de cima com os de baixo. E não é charminho de gente que escreve ou sei lá que coisa. O fato é que agora que perdeu a graça sofrer pra fazer graça, sobrou só essa verdade que nem merece destaque, que nem me assusta mais, de que eu sofro mesmo. Eu sofro muito mais do que consigo sofrer. Então, será, alguém pra valer a pena colocar flores em cima da mesa?
Se eu soubesse quem é você. Se eu visse mesmo. Se você me trouxesse o veneno do mundo. Se você me dissesse coisas malucas que estão antes de tudo isso que você diz, querendo tanto estar depois. Se você pudesse calar a boca. Se ao invés dessas besteiras decoradas que você fala sem parar, pra me mostrar que lê e vê e escuta, você ficasse quieto um pouco, me invadindo do mistério desgraçado de outra pessoa no mundo.
Se eu amasse você, não poderia estar agora, que nem uma panaca, te esperando chegar, calma e alisada, o interfone tocar, você feliz, você bonito, sua boca boa de beijar. Você sem cheiro de rua, de suor, de cigarro, de velhice, de dor. Você com seu cheiro insuportável de menino bom e desinfetado. Eu com fome, jantamos. Eu como. Conversamos. Eu posso. Tenho a voz doce, me mantenho ereta, sorrio como nessas mesas de mocinhas que não sentem o desespero apesar da situação de vitrine. Com você eu posso. Eu durmo. Não tenho olheiras. Com você eu posso amar, porque não penso “olha: eu amo”. Com você eu posso sentir porque não sinto tanto que preciso parar de sentir. E é isso que me entristece. Você é uma piscina de plástico pra criança. Pra eu retomar meu contato com a água depois do trauma com a cachoeira de milhões de metros e velocidades. E eu molho os pés e posso. Você é uma via acolchoada, para eu voltar a dar os passos, depois do acidente que me deixou sem músculo desejoso. E você segura bem forte na minha mão e diz “eu posso ir com você, eu posso dormir aqui, eu posso ficar”. E eu serei eternamente grata, mas não eternamente.
As pessoas rompidas pelos amores que não puderam suportar, se juntam e seguem. Anos. Casamentos. Mãos fechadas, quentinhas. Isso não é pra mim, ainda que o oposto também não seja. Daqui a pouco, eu sozinha, cacos de vidro. Nem cachoeira e nem piscina. Eu seca. Porque só sei viver esperando ser molhada e não molhada. Molhada me resfrio, gripo, tenho medo de acabar. Seca é a espera e é como posso.
Esse tempo com você, preciso que você saiba: uma saudade imensa de quando eu lambia o diabo. O que secou minhas plantas, minhas larguras, meus líquidos. O amor bom deixa sempre a melancolia de não estar mais morrendo. A saudade do abismo insuportável de se sentir viva. A certeza de que uma hora se volta pro amor ruim, sabendo, de algum lugar que não se pode jamais interferir, que ruim não é exatamente a palavra. A palavra que não se sabe e daí chamamos de ruim.
mas, essa dor que sinto é muito mais do que uma simples dor de garganta, é tudo aquilo entalado aqui dentro, é tudo o que deveria sair e não sai; todas aquelas palavras que eu deveria ter dito e não disse e o choro guardando aqui dentro. quando eu explodir isso tudo sairá de mim, inclusive a dor. Ou não.
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